Questão de vocação

Recém formado no seminário, o jovem se empolgou após participar de um dos cultos na mega-igreja.
Cheio de ânimo, ele resolve procurar alguém que possa ajudá-lo a fazer parte do grupo pastoral de tão prestigiada agência do Reino de Deus.
Sem saber exatamente por onde começar, foi até a secretaria da igreja, uma sala luxuosa com várias secretárias bilíngues sentadas em frente a terminais LCD de 17 polegadas.
Mas a única informação obtida, dita meio entre os dentes, era que todos os currículos devem ser preenchidos e enviados diretamente no site da igreja, via internet.
“Mas… e quem não tem computador, como eu?”, perguntou, recebendo um olhar de incredulidade.
“Como assim? Não tem computador?! Você está brincando, não está?!”
Percebendo que todas as demais secretárias imediatamente olharam para ele, fitando-o como um Homem de Neanderthal repaginado, agradeceu e se retirou.
Em casa, orou, meditou sobre o assunto e tomou uma decisão: iria procurar o pastor Premium e falar com ele sobre seu chamado.
Afinal, com seu discernimento, aquele santo homem não só o aceitaria como poderia ser seu mentor numa caminhada de sucesso para honra e glória de Deus.
Bem, pelo menos era isso que ele pensava…
Nos dias seguintes, percebeu que seria mais fácil trocar umas bitocas com a rainha da Inglaterra do que se aproximar do líder máximo da mega-igreja.
O antigo costume de cumprimentar os membros na saída do culto havia sido abolido na mega-igreja assim que os MBA’s assumiram o comando.
O pastor Premium entrava e saía do púlpito por uma discreta porta nos fundos, inacessível aos demais.
Dali ele era escoltado por seus três seguranças israelenses, até embarcar protegido numa das Mercedes classe S blindadas, de uso exclusivo do staff.
“Problemas radicais, soluções idem”, pensou o jovem.
Assim, durante um culto dirigido pelo pastor Premium, o novel bacharel levantou-se e caminhou, aproximando-se do púlpito.
“Pastor Premium, preciso falar com o senhor! Eu sinto meu coração arder de amor pelas almas perdidas! Eu desejo de todo o meu ser fazer parte do grupo de pastores dessa igreja! O senhor tem que me ajudar!”
Enquanto ele estava apenas falando com o pastor Premium a situação estava mais ou menos calma, apesar da cara apavorada do pastor.
Emocionado, ele perde a noção do perigo, aproximando-se do púlpito para dar um abraço no condutor do rebanho da mega-igreja.
Súbitamente, sentiu tudo escurecer, parecendo que puxaram o chão debaixo de seus pés.
Acordou com o incômodo de uma luz forte.
“Está recuperando a consciência”, comentou o médico da UTI móvel, guardando a lanterna.
“O que houve?”, perguntou, sentindo uma forte dor de cabeça e a falta de dois dentes molares.
“Apenas um lamentável mal entendido, meu jovem”, lhe disse um risonho pastor Advanced, ajudando-o a se levantar da cama.
“Você sabe como é, essa violência absurda, maníacos, agentes do maligno. Nossos seguranças não são advinhos, eles tem que agir para evitar que algum demônio atinja o ungido do Senhor, não é mesmo?”.
O ex-seminarista balançou a cabeça, ainda zonzo e vendo tudo meio fora de foco.
Sábiamente, resolveu aproveitar a oportunidade e falou ao pastor Advanced sobre seu anseio.
O pastor coçou a cabeça, pensativo.

“Meu jovem, o processo seletivo é árduo, difícil e exige alta capacitação. Mas verei o que posso fazer”.
Naquele mesmo dia reuniram-se o pastor Premium, o pastor Advanced e os advogados da mega-igreja, para comentarem sobre o ocorrido.
“Pastor Premium, na verdade ele tentou atrair sua atenção para ajudá-lo a tentar entrar para o staff pastoral da mega-igreja”.
“Então virou bagunça? Daqui há pouco qualquer um vai se achar no direito de vir falar diretamente comigo, onde já se viu?! Aonde nós vamos parar?! Além disso, não é tão simples assim ingressar no staff”.
Um dos advogados pediu a palavra e ponderou que não ouvir o rapaz poderia criar um clima favorável a represálias, inclusive na área judicial.
A menção da expressão “área judicial” provocou um silêncio sepulcral na imensa CEO room.

Segundo a filosofia do pastor Premium, “a justiça dos homens é sempre contrária ao Reino de Deus” e complicações devem ser evitadas.
Assim, no dia seguinte, o bacharel recebeu um telefonema para comparecer a uma entrevista com um pastor Premier, encarregado da área de prospecção de novos talentos.
O rapaz passou a noite em oração, releu suas anotações da época do seminário, decorou alguns textos de pensadores evangélicos, pôs sua melhor roupa, pegou a Bíblia e marchou para a mega-igreja.
A fria recepção da secretária na ante-sala do pastor Premier não o desanimou.
Aliás, não desanimou nem mesmo após esperar por mais de três horas para ser atendido.
Finalmente, a secretária o conduziu até a sala, aonde o pastor Premier encontrava-se sentado, ao lado do pastor Master.
“Meu bom jovem, sente-se por favor!”, falou ele, sem levantar para cumprimenta-lo.
“Espero que você tenha trazido um currículo”, insinuou, olhando que ele só carregava a Bíblia.
O bacharel em teologia falou olhando fixamente para seu interlocutor: “Na verdade não trouxe, pastor Premier. Pensei que seria uma entrevista acerca de minha vocação, experiência de conversão, etc.”.
“Sua vocação, experiência de conversão? Sim, claro… Mas um currículo ajuda a poupar tempo, você sabe”.
Então o pastor Máster se antecipou: “Meu rapaz, qual o seu nível de conhecimento de outros idiomas?”.
A pergunta desconcertou o ex-seminarista. “Desculpe, não entendi”.
“Quero saber se você fala ou escreve em inglês, espanhol, alemão, italiano, etc?”.
“Bem, na verdade, não”.
O pastor Máster olhou sério para seu companheiro de mesa.
“Bem meu caro, você sabe que nossa igreja é uma organização em processo de franca expansão. Não existem limites para essa agência do Reino de Deus, pois pretendemos ser conhecidos em todo o mundo. Dessa forma, como falaremos aos povos além-mar, se não dominarmos a linguagem deles? Somos uma igreja que olha para além das fronteiras. É evidente que você entende isso, não é?”
Meio ressabiado, o ex-seminarista balança a cabeça e ouve a outra pergunta: “Em qual instituição você fez sua pós-graduação? FGV? Mackenzie? Unicamp?”.
“Não fiz pós-graduação e me desculpe, mas não conheço nenhum desses seminários que o senhor citou”.
O pastor Premier coçou a cabeça.
“Não são seminários, meu rapaz. São instituições de renomada reputação na formação de líderes de gestão. Uma igreja como a nossa há muito extrapolou o perfil normal das igrejas. Engana-se quem pensa que hoje a mega-igreja é apenas um local para culto. Pretendemos ser a representação exata do poder e glória de Deus na terra, dominando e sobrepujando as demais instituições, de forma a demonstrar o poderio dos filhos de Deus!”, explicou um exaltado pastor Máster”.
“Diante disso, nem vou perguntar se você tem um MBA no currículo”, resmungou o pastor Premier.
“Um MB o quê?”, começou a perguntar o rapaz.
“Sua família é bem conhecida? Ao menos é tradicional no meio evangélico?”, bombardeou.
“Sou o primeiro convertido de minha família, pastor”.
O rapaz percebeu que o pastor Máster estava meio irritado, embora tentasse disfarçar.
“Jovem, os pastores da mega-igreja precisam alcançar a elite da sociedade. Com certeza você tem idéia da classe de pessoas com as quais teria que lidar como pastor da mega-igreja. Políticos, artistas, empresários, jogadores de futebol ricos e famosos, modelos, etc. Como filhos do Rei, precisamos nos impor diante deles, fazendo-os entender sobre a soberania e do poder de Deus em nossas vidas. Sendo da mesma classe social deles temos nosso diálogo facilitado, entende?”.
“Entendi.”, murmurou o desanimado candidato.
“Bem, diante do que você mesmo nos respondeu, desculpe a franqueza, mas não podemos recomendar ser nome ao pastor Premium. Existem muitas lacunas para preencher”.
O jovem se levantou, apertou as mãos dos pastores e saiu, abatido, fechando a porta atrás de si.
“Nem uma pós na FGV o sujeito tem? Aí fica difícil…”, comenta o pastor Premier.
“Até minha filha de 12 anos já fala fluentemente inglês! Pela madrugada!”, concorda o pastor Máster, caminhando para o elevador privativo, no qual desceria para a garagem para pegar sua Mercedes.
“O pior, pastor Premier, é que depois ainda é capaz de sair por aí falando que é má vontade nossa.”O pastor Premier abre a porta de sua Audi A8 e se despede, com o comentário definitivo: “Não se culpe, pastor Máster, o mundo está cheio de pessoas ingratas”.

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