Poucos são os obreiros

O alvoroço era grande na CEO Room da mega-igreja.
Todo o staff estava reunido a portas fechadas e as secretárias tinham ordens explícitas de barrar a entrada de quem fosse.
“Assuntos do Reino de Deus”, limitavam-se a responder aos que tentavam falar com um dos membros do staff.
O pastor Premium, com o controle remoto nas mãos, aumenta o volume, olhos fixos na tela da TV de plasma de 42 polegadas.
“Silêncio, cambada, é agora!!”, grita ele, diante da balbúrdia de seus pares.
“Adriano Leite Ribeiro, da Internazionale da Itália; Anderson Luis da Silva, da Bayer Leverkusen da Alemanha;…”, começa a leitura o técnico da seleção brasileira de futebol, Parreira.
Um silêncio sepulcral toma conta da sala, enquanto são lidos os 23 nomes dos atletas convocados para a Copa da Alemanha.
Finalmente, após a leitura do último nome, começam os comentários.
“Esse Parreira é uma anta mesmo, deixar o Marcos do Palmeiras fora da Copa”.
“Também, fica dando ouvidos para aquele pé-na-cova do Zagallo”.
Os comentários se sucedem, alguns pouco elogiosos, outros mais amenos.
A TV exibe agora cenas das cidades alemãs, suas atrações turísticas, estádios, etc.
Enquanto o pastor Premium olha fixamente para a TV, o pastor Platinum se aproxima, curioso.
“Eu conheço esse olhar. O que o nosso grande guia da mega igreja está pensando?”.
A TV mostra jogadas da final da Copa de 2002, entre Brasil e Alemanha, finalizadas com o gol de Ronaldinho e a multidão vibrando nas arquibancadas.
“E se nós fôssemos pregar para todo esse povo?”, murmurou o pastor Premium.
“Como assim, ir lá?!”, voltou-se o pastor Advanced, súbitamente interessado pelo rumo da prosa.
“Sim, organizaríamos uma viagem missionária – é esse o nome, Platinum? – e levaríamos a Palavra de Deus para todos os turistas presentes na Copa do Mundo”.
“Então, vamos!!!”, gritaram a uma só voz os pastores do staff, promovendo uma algazarra com gritos, assobios – acho que até mesmo uma cadeira foi arremessada para o alto.
No dia seguinte, ao abordar o assunto, o pastor Premium mostrava-se um pouco contrariado e externou isso ao pastor Platinum.
“Eu e minha boca grande, Platinum”.
“Qual o problema, pastor Premium?”
“Você ainda pergunta qual é o problema? Você tem idéia do custo de levar esse batalhão de gente para a Alemanha? E hospedagem? E alimentação? E ingressos, digo, material de evangelismo?”.
O pastor Platinum coça a cabeça, meio ressabiado.
“Mas eu entendi o senhor dizer que seria uma viagem missionária, pastor Premium”, insinua, de forma cautelosa.
“O senhor viu a empolgação dos obreiros, o amor pelas almas perdidas, o fogo ardendo em seus corações, o…”.
“Ok, ok, ok! Eu vi isso tudo, pastor Platinum, mas a mega igreja não tem como arcar com essa despesa. Afinal, precisamos ser zelosos ao gerir os recursos de Deus, homem.”
O pastor Platinum concorda, meio contrariado, principalmente ao lembrar das malas e roupas compradas especialmente para a “viagem missionária”.
“Mas como repassar isso para os obreiros? Eles estão tão empolgados…”.
“O verdadeiro servo submete-se a autoridade pastoral, pastor Platinum, não se esqueça disso!”, vociferou o pastor Premium, ao perceber traços de insatisfação no tom de voz.
Diante disso, o pastor Platinum retirou-se com o rabo entre as pernas, caçando o rumo do shopping para tentar cancelar os mais de R$ 10 mil gastos em roupas.
Com o passar dos dias, o pastor Premium viu que sua incontinência verbal poderia lhe trazer problemas. Todo o staff, sem exceção, fazia planos para a viagem missionária na Alemanha.
Alguns já comentavam abertamente sobre os gastos feitos visando a viagem. As esposas e filhos pequenos já tinham se incluído no grupo missionário, enfim, a coisa estava saindo do controle.
Mas o pastor Premium não havia chegado até onde chegou à toa.
Afinal, gerir uma mega-igreja não era tarefa para amadores e ele tratou de articular uma saída para essa situação.
Todo o staff foi convocado para uma reunião na CEO Room.
Assunto: Viagens missionárias.
Alguns estranharam aos ler o termo no plural, mas não desconfiaram de nada.
Com a sala lotada, o pastor Premium iniciou seu discurso discorrendo sobre as dificuldades do sofrido povo de Deus, nas pessoas que devolvem seus dízimos a Deus, na responsabilidade dele, pastor Premium, como gestor desses recursos e – enfatizou bem isso – na certeza de que os obreiros ali presentes concordavam que os recursos necessitam ser geridos com austeridade.
“Assim, só temos condições de enviar uma família de missionários para a Alemanha. Orei a Deus, pedindo sua orientação, e, irmãos, Ele me respondeu da mesma forma como estou aqui falando com os irmãos. Sua voz me disse claramente: Pastor Premium, quero você, meu servo, levando Minha Palavra naquele país”, afirmou, com voz empostada, olhando bem nos olhos de cada obreiro.
“Irmãos, eu ainda tentei resistir, mas quem pode resistir ao Deus Eterno?”.
O pastor Platinum coçava o queixo, sério.
“Mas mesmo com sacrifício, enviaremos missionários em outras viagens. Os irmãos também terão o privilégio de ser portadores da Palavra de Deus a outros ouvintes”.
Pegou uma pilha de envelopes fechados e, com ar teatral, anunciou: “O próprio Deus Eterno, com Sua infinita sabedoria me orientou sobre como agir. Em cada envelope está escrito o nome de uma cidade diferente, um povo sedento por ouvir a Palavra de Salvação”.
Ato contínuo, distribuiu a cada pastor auxiliar e dispensou-os, falado: “Vão e preguem as Boas Novas, em Nome de Jesus”.
No hall, enquanto aguardam o elevador, pastor Platinum abriu seu envelope e leu o nome da cidade: “São Fidélis-RJ”. Seu rosto vermelho denunciou-o e o pastor Advanced se apressou em abrir seu envelope. “Belford Roxo-RJ”.
Após uma sucessão de envelopes abertos e caras amarradas, a porta do CEO Room se abre para um sorridente pastor Premium: “Esqueci de lembrar: podem levar suas famílias!”…

 

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