Mega Igreja S.A.

O pastor Premium estava acompanhando com especial interesse a última edição da revista Exame.
A euforia em torno do mercado acionário estava atingindo, também.
Pastor Platinum, seu fiel escudeiro, entrou na sala e imediatamente procurou ficar a par dos acontecimentos.
“Qual é a novidade que nosso líder está planejando agora?”, perguntou, ansioso.
“Nada de novo, Platinum, nada de novo…”, disfarçou o pastor Premium.
“Hum, vejo que está lendo essa reportagem sobre o mercado de ações. Tem coisa boa vindo por aí, não tem, grande líder?”.
Derrotado pela insitência do inconveniente auxiliar, pastor Premium abre o jogo.
“Sabe o que é, Platinum? Estou pensando em transformar a mega igreja em sociedade anônima e negociar as ações na Bolsa. Você acompanhou o sucesso da abertura de capital do Facebook? Aquele garoto fundador embolsou milhões”.
Diante da surpresa do pastor Platinum, o líder máximo resolveu “aliviar”.
“Não que eu esteja interessado no dinheiro, longe disso. O que eu realmente almejo é a projeção de forma absoluta do nome da mega igreja para todos os campos do mundo!”.
“Sei…”, pensou consigo mesmo o pastor Platinum, mas a prudência recomendou guardar seu pensamento para si mesmo.
Mas a coisa não era tão simples assim, como Premium e Platinum descobririam na primeira consulta com a área jurídica da igreja.
“São atividades totalmente incompatíveis, não há como transformar uma igreja em sociedade anônima, a legislação não permite, existe toda uma legislação que define…”, insistia um dos  advogados da equipe.
“Não me interessa!! Mas será possível!? O mundo realmente jaz no maligno! Tudo conspira contra o Reino de Deus!”, rugia o pastor Premium, que já vislumbrava milhões de reais na conta corrente da mega igreja.
“Tem que haver um jeito, afinal, qualquer empresinha fuleira hoje tem ações na Bolsa”, argumentou o pastor Platinum, também aflito pela possibilidade de ver sua “participação acionária” virar fumaça.
Pastor Premium estava realmente irritado, pois dentro de sua linha de raciocínio, não havia absolutamente nada que pudesse impedir sua vontade, aliás, bem de acordo com sua personalidade autoritária.
“Tenho certeza de que você coseguirá transformar em realidade esse sonho de Deus, que o próprio Altíssimo revelou a mim, seu servo fiel”, falou o pastor Premium, dirigindo-se ao líder da equipe jurídica.
O líder da equipe de advogados, contudo, também era uma raposa felpuda.
Dono de uma das maiores bancas de advocacia da cidade, advogado renomado, era do tipo que não entrava para perder. Ganhava todas e o próprio Premium o respeitava.
Afinal, ele sabia de todos – eu disse todos – os meandros da mega igreja.
“Bem, caro pastor Premium, existem algumas regras para que uma empresa possa almejar ter suas ações na Bolsa”.
“E por acaso não podemos nos enquadrar nessas regras?”, desafia o líder máximo e supremo.
“Bem, para começo de conversa, existem regras de governança. As empresas devem ter regras claras, estatutos cumpridos à risca, um conselho atuante e participativo, o controle da parte financeira deve ser rígido, claro, transparente e até mesmo o sócio minoritário tem poderes”.
“Ei, que história é essa? Como assim? Até o sócio minoritário?”, pergunta um aflito pastor Platinum.
“Sim, caro pastor, isso é a transparência a que me refiro. E tem mais, em caso de problemas com a gestão, os bens dos controladores ficam indisponíveis pela justiça e podem até ser condenados judicialmente”.
O silêncio, acompanhado do ar gelado e de mau agouro, pode ser sentido varrendo a imensa sala revestida de mármore.
Pastor Platinum engoliu em seco e afrouxou o nó da gravata.
O pastor Premium já estava olhando pela janela, em direção ao horizonte, pensativo.
Para ele, essa história de governança estava mais para palhaçada.
Definitivamente, não lhe parecia uma boa idéia.
Sempre teatral, virou-se para a mesa aonde estava o staff de advogados e o pastor Platinum e, com o semblante sério, empostou a voz e declarou: “Meus caros, tenho que zelar pelo nome da mega igreja. Para evitar que agentes do inimigo levantem insinuações maldosas sobre nossas nobres intenções, prefiro abrir mão dessa porta de crescimento”.
“Abrir mão, pastor Premium?”, choraminga Platinum, lamentando o fim dos bônus aos acionistas.
“Sim, Platinum. Antes de mais nada, deve falar nosso compromisso com o Reino de Deus. Esqueçamos tudo isso e foquemos em nossa missão maior: salvar almas!”.
À saída, assim que entraram no elevador, o líder dos advogados marotamente piscou para seu assessor.

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