Tristemunhos

Confortávelmente instalado no banco traseiro da Audi S8 blindada, o pastor Premium seguia para a Mega Igreja.
Por um breve momento, teve que interromper a leitura do Bloomberg Magazine, pois um carro de som parado ao lado trovejava um convite meio bizarro: “Não perca! Nesse domingo, na Hiper Igreja, venha ouvir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou, fritou e devorou suas vítimas! Venha ouvir o relato de um ex-monstro!”.
Premium deu seu conhecido sorriso de canto de boca. “Papo de malucos!”.
Mas eis que naquele fatídico domingo, após um dos cultos da noite, ele comentava com Advanced enquanto se dirigia para a CEO room: – “Estranho, percebi o santuário meio vazio. Você achou o mesmo?”.
Advanced não perdeu tempo: – “Mas é claro! A turma toda correu para assistir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou e…”
– “Só falta você me dizer que foi assistir, Advanced”, disse o pastor Premium, encarando seu auxiliar.
– “Bem, para ser sincero, fui sim, grande mestre. Queria ver o que aquele sujeito ia falar”.
Premium, maquiavélico, deu corda: – “E ele falou algo interessante?”.
Advanced se empolgou ao relatar as proezas do psicopata.
– “Ele cortava com uma faca cega, guardava os pedaços num freezer e ia fritando aos poucos, numa frigideira feita sob encomenda e…”.
– E quanto tempo durou seu testemunho?” Como foi o programa?”.
– “Bem, ele falou umas duas horas sobre seus crimes e o detalhes horripilantes, teve gente até que passou mal e no finalzinho acho que ele encerrou falando alguma coisa ter sido salvo, mas foi muito rápido, nem deu para ouvir direito”.
Premium faz então a pergunta vital: – “E tinha muita gente?”.
– “Tá brincando?! Tinha gente pendurada no lustre, e olha que o templo deles é igual ao nosso, devem caber uns 10 mil pessoas”.
No dia seguinte, logo cedo, Advanced, Platinum, Gold e Premier estão reunidos com o líder máximo da Mega Igreja. Assunto: Foco nos testemunhos que “transformam vidas”.
– “O tema é formidável, pastor Premium. Eu lembrei imediatamente de um missionário que trabalhava com as tribos lá no Araguaia…”, inicia o pastor Gold.
– “Isso é muito bonito, Gold, mas não é foco”, deixando o staff em compasso de espera, enquanto convoca o pastor Advanced.
– “Fez o que eu lhe mandei?”
Pastor Advanced traz então uma relatório, enquanto a tv de LCD começa a exibir as imagens de figuras sinistras, cada um mais mal-encarado que o anterior.
– “Esse aí parece ser bom. Consta aqui que ele exterminou mais de quinhentos cães e gatos da cidade dele”.
– ” Esse outro já fez de tudo um pouco. Chefe de gangue de rua, assaltou, matou, sequestrou, foi dono de boca de fumo, o cara é fera”.
E a relação seguia, com os piores expoentes da sociedade, com o que existe de mais repulsivo e degradante.
Lá pelo décimo “candidato” o mal-estar era evidente e o pastor Premier resolveu decidir.
– “Vamos convidar esse último, o “Mata Rindo”, que jogava o pessoal ainda vivo dentro da caldeira”.
Deu ordens claras para que o pastor Advanced, divulgasse na tv, rádio, jornais e internet.
O assunto tomou conta da cidade e, no dia marcado, a Mega Igreja estava abarrotada.
Pastor Premium e seu staff estavam acomodados no esplêndido espaço da nave, posicionados atrás do púlpito, aonde a atração da noite, o temível “Mata Rindo” daria seu testemunho.
Após a parte musical e as coregrafias, o “testemunhante” da noite tomou a palavra.
“Mata Rindo” não tinha esse singelo apelido à toa. Contou detalhes de sua vida, de como fora abandonado pelos pais, vivendo nas ruas desde os quatro anos e aos dez anos já chefiava uma gangue de rua.
O povo acompanhava, olhos fixos nele, o relato de suas proezas na chamada “vida pregressa”.
No entanto, pastor Premium cometera um erro craso: não havia conversado antes com “Mata Rindo”. Se tivesse tido esse cuidado básico, veria que não existia mais o assassino frio e sanguinário.
Ele era uma nova criatura, transformada pelo poder de Deus.
Pastor Premium tentou “ajudá-lo”: – “Mas você matou quantos, mesmo?”.
– “Prefiro não lembrar disso, pastor…”.
– “Não devemos renegar nosso passado, homem!”.
Muito contrafeito, ele sussura que foram “alguns”.
– “Alguns?!”, exclama o dirigente.
– “Estamos de alguém muito modesto, meus irmãos! Esse homem foi um monstro sanguinário, que matava com requintes de crueldade! Era o braço-direito do “coisa-ruim!”.
O regenerado sentiu-se incomodado com o destaque dado.
– “E é verdade que você jogava a turma ainda viva dentro da caldeira?”, provoca Premium.
– “Na verdade…”
– “E as vítimas gritavam muito quando você as matava? Você gostava de ver as expressões de terror?”.
– “Bem, pastor…”
– “Elas imploravam para você poupá-las?”
– “Você aquecia muito a caldeira?”
– “ELas morriam logo ou ficavam gritando enquanto eram derretidas?”
– “Você…”
– “Chega!!!! Não quero falar sobre meu passado”, interrompeu firme, mas sem irritação o convidado da noite.
– “Mas como? Todo esse povo veio aqui para ouvir o relato do “Mata Rindo”!”, insistiu Premium.
Ele estava desconfortável, pois percebeu que a coisa estava entrando por um caminho pelo qual ele não sabia caminhar.
– “Se vieram aqui ouvir o “Mata Rindo”, perderam seu tempo. Hoje sou uma nova criatura, não tenho orgulho do meu passado, já paguei minha dívida com a sociedade”.
– “Mas os detalhes, o cheiro de queimado, os corpos virando cinzas…”, gagueja Premium.
– “É tudo passado, graças a Deus!”, disse, retirando-se do imenso palco e saindo pelos fundos.
Diante da “saia justa”, pastor Premium desconversou e encerrou o culto meio contrariado.
Mas, para sua surpresa, as pessoas que lotavam a Mega Igreja gostaram do testemunho. Algumas choravam e oravam, de olhos fechados.
À saída, antes de embarcar na Mercedes classe S blindada rumo sua casa, lamentou-se com pastor Platinum.
– “Vá entender esses caras, Platinum. O sujeito tem uma audiência dessas, com mais de 10 mil pessoas e fica com vergonha de “abrir o verbo”.
Ficou só na “água-com açúcar”.

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