Brincando com fogo – Parte I

Confortavelmente instalado a bordo da Mercedes blindada, rumo à Mega Igreja, pastor Premium se irrita com o trânsito totalmente engarrafado.
– “Mas será possível!? O que é agora?”.
Após intermináveis minutos de espera, a explicação: uma imensa multidão aglomerada em frente a uma dessas igrejas apelativas.
A faixa, imensa, convidava todos para a “Semana do exorcismo definitivo!”.
Premium, com seu conhecido sorriso irônico olhava com desdem.
– “Veja só aquela faixa: garantimos a expulsäo ou seu dinheiro de volta. Eu me divirto!”, comenta com um dos seguranças israelenses.
O motorista, tambem irritado, comenta que o trânsito estava assim desde o primeiro dia.
– Como assim, “desde o primeiro dia”?, pergunta o líder da Mega Igreja, subitamente interessado.
– Essa algazarra começou no início da semana, hoje é quinta-feira e só terminará no domingo.
O segurança, bem informado, arremata:
– Imagine isso aqui no domingo, quando virá um xamã lá da Indonésia. Parece que väo fechar o trânsito e tudo.
Sentado no banco de couro, o pastor Premium recolhera o sorriso e agora ele está pensativo, enquanto o veículo desliza veloz pelas avenidas.
Mal entrou no CEO room, ordenou que Platinum e Advanced fossem a ele.
Assim que chegam, o líder supremo da Mega Igreja testa-os, perguntando o que sabiam sobre a “Semana do exorcismo definitivo!”.
Prá variar, ambos estavam mais por fora do que aro de barril.
– “Nunca ouvi falar”, disse um
– “Deve ser uma dessas semanas de liquidação, queima de estoque, etc”, disse o outro.
Diante de tamanha ignorância, Premium lamenta que o destino tenha lhe reservado tais assessores.
– Façam o seguinte: peçam ao motorista que leve-os até um mafuá que está promovendo essa tal “semana”, observem tudo. Quero ver se há algo que possamos implementar aqui.
Missão dada é missão cumprida.
Na semana seguinte, Platinum e Advanced ofereceram ao staff um belo relatório.
Reunidos em volta da bela mesa de mogno, a liderança – ou board, como gostavam de ser chamados – da Mega Igreja ouvia com atenção.
– Bem, a frequência média nos dias da programação surpreendeu. O local comportava umas duas mil pessoas e estava hiper-lotado. Em todos os dias havia aglomeração do lado de fora, atrapalhando o trânsito.
– E os tais exorcismos?, perguntou o pastor Gold.
– O de sempre: mão na cabeça do sujeito, uns gritos, uns tapas na cara e chão. O trivial variado, nada de excepcional.
– Teve curas tambem?, pergunta outro obreiro.
– Não, parece que o foco era só em exorcismo, esclarece Advanced.
Pastor Premium, que a tudo assistia calado, pergunta se eles acham que “o mercado tem demanda para concorrentes”.
– Sim, respondem ambos a uma só voz.
– Então mês que vem é a nossa vez!, decreta, para júbilo e palmas dos presentes.

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Pesca farta

O clima na reunião semanal do staff da Mega Igreja estava meio pesado.
Do lado de fora do CEO room era possível ouvir o tom de voz irritado do pastor
Premium.
– Eu quero que alguém me explique esse números!, dizia ele, apontando para os relatórios das entradas do último mês.
Realmente, era preocupante.
A média total de entradas despencara quase 30% num único mês.
Pior ainda: era visível que a frquência dos quatro cultos diários vinha sofrendo uma queda.
Diante disso, pastor Gold, num rompante de sinceridade, sugeriu que retornassem ao modelo de dois cultos, um pela manhã e o outro à noite.
Como consequência, quase foi expulso da sala a pontapés.
– Afinal, o que houve, obreiros? O que houve?, carregava no drama o líder máximo da Mega Igreja.
Pastor Platinum, que tinha como mérito a falta de pudor em levar pancadas, arriscou:
– Acho que é hora de pensar em alguns eventos para atrair novos crentes, mestre.
Para surpresa geral, ao invés de arremessá-lo porta afora, o pastor Premium ficou pensativo.
De fato, surpreendentemente, o que ele disse fazia sentido.
A rotatividade na membrasia da Mega Igreja era altíssima, beirava o absurdo.
Os últimos estudos indicavam que, em geral, uma pessoa permanecia como membro por, no máximo, 30 dias.
– E que tipo de eventos faremos?
– Você está pensando em… como é mesmo nome, Advanced?
– Evangelismo, pastor Premium, evangelismo.
– É. Isso aí que o Advanced falou. É isso, Platinum?
O braço direito do líder maior estava pensando mais à frente.
Aliás, bem mais à frente.
Ele havia ido sorrateiramente a alguns eventos da rival, a Hiper Igreja.
Um deles caia como uma luva no propósito deles.
Entusiasmado, ele começa a descrever sua idéia, diante do ohar de Premium e o restante do staff.
Inicialmente céticos, eles começam a se empolgar e logo ouvem-se expressões como “Sensacional!”, “Boa idéia!” e “Vamos arrassar!”.
Na mega Igreja, da idéia à realidade era questão de tempo, pois recursos näo faltam.
E assim, em uma semana, imensos banners ocupavam a avenida principal da cidade.
Coloridíssimos, de excelente qualidade e esmero visual, o texto berrava: “Venha mudar de vida!!”.
As “atrações” foram escolhidas a dedo e visavam a atender o público jovem, alvo da investida.
– Doze horas de louvor e pancadão? O que significa isso?, quis saber um diácono,
da chamada “velha guarda” da igreja.
– Significa falar a linguagem dos jovens, meu bom homem, tratou de responder o pastor Advanced.
– E isso aqui?, aponta para a faixa aonde se lê: MC’s Santarrão, Penteca e a grande atração, a “Gaiola das Consagradas”.
– Vamos encher nossa igreja de jovens e isso é que interessa, se intrometeu pastor Premium, fazendo um gesto com a mão para sumirem com o diácono.
– Que sujeito inoportuno! Esse pessoal da velha guarda me tira do sério.
– É bem capaz de criarem caso com a presença dos “bondes dos profetas” e do “bonde dos filisteus”.
– Esqueça-os, Platinum! Vamos encher a igreja de jovens.

Tristemunhos

Confortávelmente instalado no banco traseiro da Audi S8 blindada, o pastor Premium seguia para a Mega Igreja.
Por um breve momento, teve que interromper a leitura do Bloomberg Magazine, pois um carro de som parado ao lado trovejava um convite meio bizarro: “Não perca! Nesse domingo, na Hiper Igreja, venha ouvir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou, fritou e devorou suas vítimas! Venha ouvir o relato de um ex-monstro!”.
Premium deu seu conhecido sorriso de canto de boca. “Papo de malucos!”.
Mas eis que naquele fatídico domingo, após um dos cultos da noite, ele comentava com Advanced enquanto se dirigia para a CEO room: – “Estranho, percebi o santuário meio vazio. Você achou o mesmo?”.
Advanced não perdeu tempo: – “Mas é claro! A turma toda correu para assistir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou e…”
– “Só falta você me dizer que foi assistir, Advanced”, disse o pastor Premium, encarando seu auxiliar.
– “Bem, para ser sincero, fui sim, grande mestre. Queria ver o que aquele sujeito ia falar”.
Premium, maquiavélico, deu corda: – “E ele falou algo interessante?”.
Advanced se empolgou ao relatar as proezas do psicopata.
– “Ele cortava com uma faca cega, guardava os pedaços num freezer e ia fritando aos poucos, numa frigideira feita sob encomenda e…”.
– E quanto tempo durou seu testemunho?” Como foi o programa?”.
– “Bem, ele falou umas duas horas sobre seus crimes e o detalhes horripilantes, teve gente até que passou mal e no finalzinho acho que ele encerrou falando alguma coisa ter sido salvo, mas foi muito rápido, nem deu para ouvir direito”.
Premium faz então a pergunta vital: – “E tinha muita gente?”.
– “Tá brincando?! Tinha gente pendurada no lustre, e olha que o templo deles é igual ao nosso, devem caber uns 10 mil pessoas”.
No dia seguinte, logo cedo, Advanced, Platinum, Gold e Premier estão reunidos com o líder máximo da Mega Igreja. Assunto: Foco nos testemunhos que “transformam vidas”.
– “O tema é formidável, pastor Premium. Eu lembrei imediatamente de um missionário que trabalhava com as tribos lá no Araguaia…”, inicia o pastor Gold.
– “Isso é muito bonito, Gold, mas não é foco”, deixando o staff em compasso de espera, enquanto convoca o pastor Advanced.
– “Fez o que eu lhe mandei?”
Pastor Advanced traz então uma relatório, enquanto a tv de LCD começa a exibir as imagens de figuras sinistras, cada um mais mal-encarado que o anterior.
– “Esse aí parece ser bom. Consta aqui que ele exterminou mais de quinhentos cães e gatos da cidade dele”.
– ” Esse outro já fez de tudo um pouco. Chefe de gangue de rua, assaltou, matou, sequestrou, foi dono de boca de fumo, o cara é fera”.
E a relação seguia, com os piores expoentes da sociedade, com o que existe de mais repulsivo e degradante.
Lá pelo décimo “candidato” o mal-estar era evidente e o pastor Premier resolveu decidir.
– “Vamos convidar esse último, o “Mata Rindo”, que jogava o pessoal ainda vivo dentro da caldeira”.
Deu ordens claras para que o pastor Advanced, divulgasse na tv, rádio, jornais e internet.
O assunto tomou conta da cidade e, no dia marcado, a Mega Igreja estava abarrotada.
Pastor Premium e seu staff estavam acomodados no esplêndido espaço da nave, posicionados atrás do púlpito, aonde a atração da noite, o temível “Mata Rindo” daria seu testemunho.
Após a parte musical e as coregrafias, o “testemunhante” da noite tomou a palavra.
“Mata Rindo” não tinha esse singelo apelido à toa. Contou detalhes de sua vida, de como fora abandonado pelos pais, vivendo nas ruas desde os quatro anos e aos dez anos já chefiava uma gangue de rua.
O povo acompanhava, olhos fixos nele, o relato de suas proezas na chamada “vida pregressa”.
No entanto, pastor Premium cometera um erro craso: não havia conversado antes com “Mata Rindo”. Se tivesse tido esse cuidado básico, veria que não existia mais o assassino frio e sanguinário.
Ele era uma nova criatura, transformada pelo poder de Deus.
Pastor Premium tentou “ajudá-lo”: – “Mas você matou quantos, mesmo?”.
– “Prefiro não lembrar disso, pastor…”.
– “Não devemos renegar nosso passado, homem!”.
Muito contrafeito, ele sussura que foram “alguns”.
– “Alguns?!”, exclama o dirigente.
– “Estamos de alguém muito modesto, meus irmãos! Esse homem foi um monstro sanguinário, que matava com requintes de crueldade! Era o braço-direito do “coisa-ruim!”.
O regenerado sentiu-se incomodado com o destaque dado.
– “E é verdade que você jogava a turma ainda viva dentro da caldeira?”, provoca Premium.
– “Na verdade…”
– “E as vítimas gritavam muito quando você as matava? Você gostava de ver as expressões de terror?”.
– “Bem, pastor…”
– “Elas imploravam para você poupá-las?”
– “Você aquecia muito a caldeira?”
– “ELas morriam logo ou ficavam gritando enquanto eram derretidas?”
– “Você…”
– “Chega!!!! Não quero falar sobre meu passado”, interrompeu firme, mas sem irritação o convidado da noite.
– “Mas como? Todo esse povo veio aqui para ouvir o relato do “Mata Rindo”!”, insistiu Premium.
Ele estava desconfortável, pois percebeu que a coisa estava entrando por um caminho pelo qual ele não sabia caminhar.
– “Se vieram aqui ouvir o “Mata Rindo”, perderam seu tempo. Hoje sou uma nova criatura, não tenho orgulho do meu passado, já paguei minha dívida com a sociedade”.
– “Mas os detalhes, o cheiro de queimado, os corpos virando cinzas…”, gagueja Premium.
– “É tudo passado, graças a Deus!”, disse, retirando-se do imenso palco e saindo pelos fundos.
Diante da “saia justa”, pastor Premium desconversou e encerrou o culto meio contrariado.
Mas, para sua surpresa, as pessoas que lotavam a Mega Igreja gostaram do testemunho. Algumas choravam e oravam, de olhos fechados.
À saída, antes de embarcar na Mercedes classe S blindada rumo sua casa, lamentou-se com pastor Platinum.
– “Vá entender esses caras, Platinum. O sujeito tem uma audiência dessas, com mais de 10 mil pessoas e fica com vergonha de “abrir o verbo”.
Ficou só na “água-com açúcar”.

Mega Igreja S.A.

O pastor Premium estava acompanhando com especial interesse a última edição da revista Exame.
A euforia em torno do mercado acionário estava atingindo, também.
Pastor Platinum, seu fiel escudeiro, entrou na sala e imediatamente procurou ficar a par dos acontecimentos.
“Qual é a novidade que nosso líder está planejando agora?”, perguntou, ansioso.
“Nada de novo, Platinum, nada de novo…”, disfarçou o pastor Premium.
“Hum, vejo que está lendo essa reportagem sobre o mercado de ações. Tem coisa boa vindo por aí, não tem, grande líder?”.
Derrotado pela insitência do inconveniente auxiliar, pastor Premium abre o jogo.
“Sabe o que é, Platinum? Estou pensando em transformar a mega igreja em sociedade anônima e negociar as ações na Bolsa. Você acompanhou o sucesso da abertura de capital do Facebook? Aquele garoto fundador embolsou milhões”.
Diante da surpresa do pastor Platinum, o líder máximo resolveu “aliviar”.
“Não que eu esteja interessado no dinheiro, longe disso. O que eu realmente almejo é a projeção de forma absoluta do nome da mega igreja para todos os campos do mundo!”.
“Sei…”, pensou consigo mesmo o pastor Platinum, mas a prudência recomendou guardar seu pensamento para si mesmo.
Mas a coisa não era tão simples assim, como Premium e Platinum descobririam na primeira consulta com a área jurídica da igreja.
“São atividades totalmente incompatíveis, não há como transformar uma igreja em sociedade anônima, a legislação não permite, existe toda uma legislação que define…”, insistia um dos  advogados da equipe.
“Não me interessa!! Mas será possível!? O mundo realmente jaz no maligno! Tudo conspira contra o Reino de Deus!”, rugia o pastor Premium, que já vislumbrava milhões de reais na conta corrente da mega igreja.
“Tem que haver um jeito, afinal, qualquer empresinha fuleira hoje tem ações na Bolsa”, argumentou o pastor Platinum, também aflito pela possibilidade de ver sua “participação acionária” virar fumaça.
Pastor Premium estava realmente irritado, pois dentro de sua linha de raciocínio, não havia absolutamente nada que pudesse impedir sua vontade, aliás, bem de acordo com sua personalidade autoritária.
“Tenho certeza de que você coseguirá transformar em realidade esse sonho de Deus, que o próprio Altíssimo revelou a mim, seu servo fiel”, falou o pastor Premium, dirigindo-se ao líder da equipe jurídica.
O líder da equipe de advogados, contudo, também era uma raposa felpuda.
Dono de uma das maiores bancas de advocacia da cidade, advogado renomado, era do tipo que não entrava para perder. Ganhava todas e o próprio Premium o respeitava.
Afinal, ele sabia de todos – eu disse todos – os meandros da mega igreja.
“Bem, caro pastor Premium, existem algumas regras para que uma empresa possa almejar ter suas ações na Bolsa”.
“E por acaso não podemos nos enquadrar nessas regras?”, desafia o líder máximo e supremo.
“Bem, para começo de conversa, existem regras de governança. As empresas devem ter regras claras, estatutos cumpridos à risca, um conselho atuante e participativo, o controle da parte financeira deve ser rígido, claro, transparente e até mesmo o sócio minoritário tem poderes”.
“Ei, que história é essa? Como assim? Até o sócio minoritário?”, pergunta um aflito pastor Platinum.
“Sim, caro pastor, isso é a transparência a que me refiro. E tem mais, em caso de problemas com a gestão, os bens dos controladores ficam indisponíveis pela justiça e podem até ser condenados judicialmente”.
O silêncio, acompanhado do ar gelado e de mau agouro, pode ser sentido varrendo a imensa sala revestida de mármore.
Pastor Platinum engoliu em seco e afrouxou o nó da gravata.
O pastor Premium já estava olhando pela janela, em direção ao horizonte, pensativo.
Para ele, essa história de governança estava mais para palhaçada.
Definitivamente, não lhe parecia uma boa idéia.
Sempre teatral, virou-se para a mesa aonde estava o staff de advogados e o pastor Platinum e, com o semblante sério, empostou a voz e declarou: “Meus caros, tenho que zelar pelo nome da mega igreja. Para evitar que agentes do inimigo levantem insinuações maldosas sobre nossas nobres intenções, prefiro abrir mão dessa porta de crescimento”.
“Abrir mão, pastor Premium?”, choraminga Platinum, lamentando o fim dos bônus aos acionistas.
“Sim, Platinum. Antes de mais nada, deve falar nosso compromisso com o Reino de Deus. Esqueçamos tudo isso e foquemos em nossa missão maior: salvar almas!”.
À saída, assim que entraram no elevador, o líder dos advogados marotamente piscou para seu assessor.

As Boas Novas wireless

O pastor Premium estava muito irritado.
Ele acabara de ler na ultima edição da revista “Pespectiva Gospel” que a hiper-igreja implantara um sistema de aconselhamento através de comunicação wireless, para usuários de telefonia celular.
Aquilo foi demais para ele.
Uma reunião foi convocada às pressas com o staff gerencial e o pastor Platinum, responsável pela área de convergência digital da mega-igreja.
“É assim que vamos ser considerados um padrão de excelência no mundo eclesiástico? Vocês fazem idéia de como é desagradável ficar ouvindo determinados pastores contando vantagens em cada CMIGM (Congresso Mundial da Igrejas Geridas por MBA´s) ?”.
Na sala em silêncio, o ultimato do pastor Premium soa como uma sinistra ameaça: “Vocês da área de convergência digital tem uma semana para apresentar algo novo. Caso contrário, podem passar no RH”.
Após várias noites de trabalho intenso, com a tensão presente no ar, chegou o dia da reunião marcada para apresentação da chamada “resposta à altura”.
A sala da diretoria, no oitavo andar da mega-igreja estava tomada pela alta diretoria e os pastores Platinum da área de convergência digital.
“E então, o que temos para contra-atacar?”, perguntou o pastor Premium.
“Algumas boas idéias”, respondeu o CIO da convergência, passando a apresentar seu relatório.
De fato, propostas bem inovadoras surgiram, alguma de caráter futurista.
No entanto, a que encantou a diretoria foi a ultima apresentada.
“As pessoas atualmente são muito ocupadas, num ritmo de vida que consome praticamente todos os minutos do dia”, começou o pastor Platinum,”e o tempo que as pessoas dedicam a participar do culto na mega-igreja acaba fazendo falta para as demais atividades”.
Um rumor percorre a sala, enquanto ele questiona a audiência: “Como fazer com que maximizemos o tempo? É simples, vamos levar o culto da mega-igreja aos nossos cli…, digo, membros, estejam aonde tiverem”.
Dito isso, ele liga o projetor multi-mídia e surge na tela uma apresentação de um equipamento pequeno, parecido com um desses palmtop´s, mas com uma tela e um teclado.
“Essa é a nossa resposta em termos de conectividade!”
“Com esse aparelho, esteja onde estiver, dentro da área de cobertura, será possível acompanhar, em tempo real, a transmissão de qualquer um dos doze cultos diários da mega-igreja”.
A diretoria não se continha de euforia.
“Agora sim terei o que mostrar para aqueles empedernidos na próxima CMIGM (Congresso Mundial da Igrejas Geridas por MBA´s)”, imagina o pastor Premium.
Os recursos do pequeno aparelho pareciam infindáveis.
Seria possível baixar, via banda larga, os sermões e estudos dos pastores da mega-igreja, além de fotos e vídeos das apresentações do grupo de coreografia “Joshua Angels” ou da equipe de louvor da mega-igreja, “Eternal Praise”.
O pastor Premium ensaia as palmas, mas o pastor Platinum, com um gesto, anuncia: “Ainda tem mais”.
“Como assim? Existe algo ainda mais incrível?”, pergunta, maravilhado.
“Sim, conseguimos dois contratos excelentes: o primeiro com a fabricante do aparelho, que será oferecido aos cli…, digo membros da mega-igreja em condições excepcionais de financiamento”.
“E o segundo contrato, qual é?”, pergunta um dos pastores Máster.
“Firmamos um acordo com as principais operadoras de telefonia móvel e a cada acesso ao nosso servidor estaremos recendo 50% do valor da tarifa. Numa previsão conservadora, se conseguirmos ter uma base de 5.000 aparelhos no primeiro ano de atividade, teremos uma entrada mensal na faixa de alguns milhares de reais. Que tal?”
As parede de vidro blindex da sala estremeceram com os aplausos frenéticos.
Acho que até um “Glória a Deus” foi ouvido, mas não tenho certeza.

Poucos são os obreiros

O alvoroço era grande na CEO Room da mega-igreja.
Todo o staff estava reunido a portas fechadas e as secretárias tinham ordens explícitas de barrar a entrada de quem fosse.
“Assuntos do Reino de Deus”, limitavam-se a responder aos que tentavam falar com um dos membros do staff.
O pastor Premium, com o controle remoto nas mãos, aumenta o volume, olhos fixos na tela da TV de plasma de 42 polegadas.
“Silêncio, cambada, é agora!!”, grita ele, diante da balbúrdia de seus pares.
“Adriano Leite Ribeiro, da Internazionale da Itália; Anderson Luis da Silva, da Bayer Leverkusen da Alemanha;…”, começa a leitura o técnico da seleção brasileira de futebol, Parreira.
Um silêncio sepulcral toma conta da sala, enquanto são lidos os 23 nomes dos atletas convocados para a Copa da Alemanha.
Finalmente, após a leitura do último nome, começam os comentários.
“Esse Parreira é uma anta mesmo, deixar o Marcos do Palmeiras fora da Copa”.
“Também, fica dando ouvidos para aquele pé-na-cova do Zagallo”.
Os comentários se sucedem, alguns pouco elogiosos, outros mais amenos.
A TV exibe agora cenas das cidades alemãs, suas atrações turísticas, estádios, etc.
Enquanto o pastor Premium olha fixamente para a TV, o pastor Platinum se aproxima, curioso.
“Eu conheço esse olhar. O que o nosso grande guia da mega igreja está pensando?”.
A TV mostra jogadas da final da Copa de 2002, entre Brasil e Alemanha, finalizadas com o gol de Ronaldinho e a multidão vibrando nas arquibancadas.
“E se nós fôssemos pregar para todo esse povo?”, murmurou o pastor Premium.
“Como assim, ir lá?!”, voltou-se o pastor Advanced, súbitamente interessado pelo rumo da prosa.
“Sim, organizaríamos uma viagem missionária – é esse o nome, Platinum? – e levaríamos a Palavra de Deus para todos os turistas presentes na Copa do Mundo”.
“Então, vamos!!!”, gritaram a uma só voz os pastores do staff, promovendo uma algazarra com gritos, assobios – acho que até mesmo uma cadeira foi arremessada para o alto.
No dia seguinte, ao abordar o assunto, o pastor Premium mostrava-se um pouco contrariado e externou isso ao pastor Platinum.
“Eu e minha boca grande, Platinum”.
“Qual o problema, pastor Premium?”
“Você ainda pergunta qual é o problema? Você tem idéia do custo de levar esse batalhão de gente para a Alemanha? E hospedagem? E alimentação? E ingressos, digo, material de evangelismo?”.
O pastor Platinum coça a cabeça, meio ressabiado.
“Mas eu entendi o senhor dizer que seria uma viagem missionária, pastor Premium”, insinua, de forma cautelosa.
“O senhor viu a empolgação dos obreiros, o amor pelas almas perdidas, o fogo ardendo em seus corações, o…”.
“Ok, ok, ok! Eu vi isso tudo, pastor Platinum, mas a mega igreja não tem como arcar com essa despesa. Afinal, precisamos ser zelosos ao gerir os recursos de Deus, homem.”
O pastor Platinum concorda, meio contrariado, principalmente ao lembrar das malas e roupas compradas especialmente para a “viagem missionária”.
“Mas como repassar isso para os obreiros? Eles estão tão empolgados…”.
“O verdadeiro servo submete-se a autoridade pastoral, pastor Platinum, não se esqueça disso!”, vociferou o pastor Premium, ao perceber traços de insatisfação no tom de voz.
Diante disso, o pastor Platinum retirou-se com o rabo entre as pernas, caçando o rumo do shopping para tentar cancelar os mais de R$ 10 mil gastos em roupas.
Com o passar dos dias, o pastor Premium viu que sua incontinência verbal poderia lhe trazer problemas. Todo o staff, sem exceção, fazia planos para a viagem missionária na Alemanha.
Alguns já comentavam abertamente sobre os gastos feitos visando a viagem. As esposas e filhos pequenos já tinham se incluído no grupo missionário, enfim, a coisa estava saindo do controle.
Mas o pastor Premium não havia chegado até onde chegou à toa.
Afinal, gerir uma mega-igreja não era tarefa para amadores e ele tratou de articular uma saída para essa situação.
Todo o staff foi convocado para uma reunião na CEO Room.
Assunto: Viagens missionárias.
Alguns estranharam aos ler o termo no plural, mas não desconfiaram de nada.
Com a sala lotada, o pastor Premium iniciou seu discurso discorrendo sobre as dificuldades do sofrido povo de Deus, nas pessoas que devolvem seus dízimos a Deus, na responsabilidade dele, pastor Premium, como gestor desses recursos e – enfatizou bem isso – na certeza de que os obreiros ali presentes concordavam que os recursos necessitam ser geridos com austeridade.
“Assim, só temos condições de enviar uma família de missionários para a Alemanha. Orei a Deus, pedindo sua orientação, e, irmãos, Ele me respondeu da mesma forma como estou aqui falando com os irmãos. Sua voz me disse claramente: Pastor Premium, quero você, meu servo, levando Minha Palavra naquele país”, afirmou, com voz empostada, olhando bem nos olhos de cada obreiro.
“Irmãos, eu ainda tentei resistir, mas quem pode resistir ao Deus Eterno?”.
O pastor Platinum coçava o queixo, sério.
“Mas mesmo com sacrifício, enviaremos missionários em outras viagens. Os irmãos também terão o privilégio de ser portadores da Palavra de Deus a outros ouvintes”.
Pegou uma pilha de envelopes fechados e, com ar teatral, anunciou: “O próprio Deus Eterno, com Sua infinita sabedoria me orientou sobre como agir. Em cada envelope está escrito o nome de uma cidade diferente, um povo sedento por ouvir a Palavra de Salvação”.
Ato contínuo, distribuiu a cada pastor auxiliar e dispensou-os, falado: “Vão e preguem as Boas Novas, em Nome de Jesus”.
No hall, enquanto aguardam o elevador, pastor Platinum abriu seu envelope e leu o nome da cidade: “São Fidélis-RJ”. Seu rosto vermelho denunciou-o e o pastor Advanced se apressou em abrir seu envelope. “Belford Roxo-RJ”.
Após uma sucessão de envelopes abertos e caras amarradas, a porta do CEO Room se abre para um sorridente pastor Premium: “Esqueci de lembrar: podem levar suas famílias!”…

 

Semeadores

Como em todas as igrejas, o mês de missões na mega-igreja merece grande destaque.
Programas especiais são realizados e os missionários adotados pela mega-igreja são apresentados aos 26.000 membros nos doze cultos diários.
É bem verdade que a mega-igreja possui uma estratégia inovadora e pouco ortodoxa de evangelização, mas isso não quer dizer que ela desconsidere o investimento em missões. Pelo contrário, a mega-igreja possui missionários nos mais variados cantos do planeta.
Praticamente todos participam do mega-culto “World´s Missionary Presentation”, um sucesso, que anualmente lota a mega-igreja.
Tradicionalmente, o pastor Premium apresenta cada um, dando um breve histórico, suas realizações no campo missionário, formação, família, etc.
Os membros sempre ficam muito impressionados em saber, por exemplo, que todos os missionários da mega-igreja estão muito bem instalados em seus países de destino.
Aliás, poderíamos dizer que estão muitíssimo bem-instalados.
Na Europa, por exemplo, a mega-igreja possui um missionário, afilhado do pastor Platinum, que enfrenta o clima gelado da Bélgica, confortavelmente instalado num bonito chalé na cidade de Bruxelas.
Outro, genro do pastor Gold, está com sua família na França, sofrendo os rigores da distância, isolado num apartamento de quatro quartos no bairro de Champs Elyssées, em Paris.
Na Inglaterra, outro missionário, neto do pastor Premier, tem uma visão privilegiada do Rio Tâmisa da janela de sua casa, em Londres.
No Novo Mundo, a mega-igreja também se faz presente.
Não nos esqueçamos de um dos missionários nos EUA, filho do pastor Advanced, que está com sua esposa na ensolarada Califórnia, usando em seus deslocamentos uma pickup BMW X5.
E seria injusto não citar o missionário que está no Canadá, na cidade de Montreal, confortavelmente instalado numa casa de cinco quartos, com uma Mercedes e um Pajero na garagem.
Antes que algum maledicente insinua que tais destinos atendam a outros interesses, o pastor Premium revela que a localização desses missionários foi cuidadosamente planejada, visando obedecer a uma estratégia de evangelização.
Assim, os esquiadores da cidade de Aspen, famosa estação norte-americana de esqui, poderão ser evangelizados por um dos missionários da mega-igreja.
O missionário, coincidentemente sobrinho do pastor Premium, está presente naquela cidade, instalado num chalé de três quartos no sopé da montanha.
Não se sabe exatamente porquê, mas a cada ano, sempre que se encerra o mês de missões, a secretária da mega-igreja recebe centenas de currículos e pedidos de entrevistas de voluntários interessados em trabalhar em missões.
E a cada ano, o pastor Premium, no culto de encerramento da campanha de missões, repete a mesma frase: “Não basta querer ir, irmãos, tem que ser chamado por Deus!”.