Pesca farta

O clima na reunião semanal do staff da Mega Igreja estava meio pesado.
Do lado de fora do CEO room era possível ouvir o tom de voz irritado do pastor
Premium.
– Eu quero que alguém me explique esse números!, dizia ele, apontando para os relatórios das entradas do último mês.
Realmente, era preocupante.
A média total de entradas despencara quase 30% num único mês.
Pior ainda: era visível que a frquência dos quatro cultos diários vinha sofrendo uma queda.
Diante disso, pastor Gold, num rompante de sinceridade, sugeriu que retornassem ao modelo de dois cultos, um pela manhã e o outro à noite.
Como consequência, quase foi expulso da sala a pontapés.
– Afinal, o que houve, obreiros? O que houve?, carregava no drama o líder máximo da Mega Igreja.
Pastor Platinum, que tinha como mérito a falta de pudor em levar pancadas, arriscou:
– Acho que é hora de pensar em alguns eventos para atrair novos crentes, mestre.
Para surpresa geral, ao invés de arremessá-lo porta afora, o pastor Premium ficou pensativo.
De fato, surpreendentemente, o que ele disse fazia sentido.
A rotatividade na membrasia da Mega Igreja era altíssima, beirava o absurdo.
Os últimos estudos indicavam que, em geral, uma pessoa permanecia como membro por, no máximo, 30 dias.
– E que tipo de eventos faremos?
– Você está pensando em… como é mesmo nome, Advanced?
– Evangelismo, pastor Premium, evangelismo.
– É. Isso aí que o Advanced falou. É isso, Platinum?
O braço direito do líder maior estava pensando mais à frente.
Aliás, bem mais à frente.
Ele havia ido sorrateiramente a alguns eventos da rival, a Hiper Igreja.
Um deles caia como uma luva no propósito deles.
Entusiasmado, ele começa a descrever sua idéia, diante do ohar de Premium e o restante do staff.
Inicialmente céticos, eles começam a se empolgar e logo ouvem-se expressões como “Sensacional!”, “Boa idéia!” e “Vamos arrassar!”.
Na mega Igreja, da idéia à realidade era questão de tempo, pois recursos näo faltam.
E assim, em uma semana, imensos banners ocupavam a avenida principal da cidade.
Coloridíssimos, de excelente qualidade e esmero visual, o texto berrava: “Venha mudar de vida!!”.
As “atrações” foram escolhidas a dedo e visavam a atender o público jovem, alvo da investida.
– Doze horas de louvor e pancadão? O que significa isso?, quis saber um diácono,
da chamada “velha guarda” da igreja.
– Significa falar a linguagem dos jovens, meu bom homem, tratou de responder o pastor Advanced.
– E isso aqui?, aponta para a faixa aonde se lê: MC’s Santarrão, Penteca e a grande atração, a “Gaiola das Consagradas”.
– Vamos encher nossa igreja de jovens e isso é que interessa, se intrometeu pastor Premium, fazendo um gesto com a mão para sumirem com o diácono.
– Que sujeito inoportuno! Esse pessoal da velha guarda me tira do sério.
– É bem capaz de criarem caso com a presença dos “bondes dos profetas” e do “bonde dos filisteus”.
– Esqueça-os, Platinum! Vamos encher a igreja de jovens.

Pensando grande – Final

Passados cerca de seis meses após a posse do novo obreiro na singela congregação  de Campos de Jordão – que segundo comentários, custara mais de 2 milhões de  reais – o pastor Premium exultava.
– Veja, pastor Platinum, o que é  eficiência!
Ele se referia ao gráfico de movimento financeiro, exibido na  tela do seu tablet.
De fato, desde a posse, o gráfico traçara uma curva  ascendente e se aproximava da meta traçada, de 1 milhão de reais de entrada.
Pastor Platinum e o  restante do staff mostravam-se arredios e meio constrangidos com essa  empolgação.
Mas era apenas o começo.
– Vamos fazer uma surpresa a ele!  Quero conferir ao vivo sua performance!
Ato contínuo, avisou à secretária que  mandasse preparar o helicóptero pois iria à Campos do Jordão.
– Agora, pastor  Premium? Mas nem o avisamos sobre sua visita.
– Faça o que eu estou mandando.  Tenho certeza de que ele ficará feliz.
Em poucos minutos decolava do  heliponto da mega igreja – sim, o templo possuia um – a aeronave, “presente” de  um empresário que, diziam os caluniadores, estava envolvido até a raiz dos  cabelos com escândalos de desvios de verba. Maledicência pura, claro.
Durante  o vôo, o líder da mega igreja orienta o piloto a ser discreto. Pousariam fora da  cidade, seguindo de carro até o templo.
Tão discreto quanto possível, a  Mercedes blindada parou em frente à congregação e dela desembarcaram o pastor  Premium, Platinum, Gold e Advanced. Os seguranças israelenses vinham logo atrás,  em outras duas Mercedes.
Astuto, pastor Premium fitou a imensa fachada  revestida de imensos painéis de vidro e observou que o letreiro não exibia o  símbolo da mega igreja.
Para júbilo do líder da mega igreja – e decepção dos  demais – o salão da igreja, com mais de três mil lugares, estava lotado.
No  entanto, quem conduzia o culto não era o novo obreiro.
Intrigados, seguiram  para o gabinete pastoral, num andar superior, agora com o nome alterado para Ministry Room (padrão da mega igreja).
Ao ver aquela tropa sair do elevador,  a secretária e os dois seguranças se posicionaram.
– Alto lá!, Quem são  vocês? rugiu um deles, já com a mão na pistola semi-automática, discretamente  dentro do terno.
– Como assim “quem somos nós?”, devolveu Platinum,  irritado.
– Sou o pastor Premium, líder da mega igreja, a qual essa  congregação é submissa, falou o líder máximo, carregando no tom da palavra  “submissa”.
A secretária não demonstrou nenhum temor, muito pelo  contrário.
– Ah, sei… Pastor Premium… Acho que já ouvi falar. O que  desejam?
Advanced quase infartou.
– Mas será possível?! Temos que ficar  explicando o que queremos? Cadê o pastor da congregação, que foi nomeado por  nós? Chame ele aqui!
– O senhor está falando do nosso supremo e máximo líder,  pastor bispo apóstolo Supremo?
Dessa vez foi o pastor Premium que quase  infartou. Mas procurou manter a pose, embora estivesse com a pressão na casa dos  18 x 22.
– Minha cara jovem, apenas anuncie nossa presença, por favor.
A  secretária nem olhou para a cara do pastor ao responder.
– Nosso pastor bispo  apóstolo Supremo não está. Ele viajou ontem para Miami para tratar de negócios e  só retorna semana que vem.
– E eu posso saber o que ele foi tratar lá em  Miami?, perguntou o pastor Gold, num fiapo de voz, já temendo pela  resposta.
– Foi negociar uma parceria com o pessoal da Ultra Igreja Celestial  Galática. Coisa grande!
E arrematou, piscando o olho: – Ele é um obreiro de  visão.
No helicóptero, durante a viagem de volta, o silêncio era tamanho que  podia-se ouvir a respiração alterada do pastor Premium.
Mas o líder máximo da  mega igreja, que construira uma das maiores igrejas do planeta a partir de uma  simples congregação, que era reverenciado como brilhante gestor e estrategista,  respeitado homem de negócios, empresário de sucesso e – ah, claro – bom  pregador, não seria subjugado.
No CEO room, seu staff reunido mostrava  preocupação.
– Aonde já se viu? É um absurdo! Abusar de nossa confiança!,  começou Platinum.
– E tínhamos tanta esperança nele, não é, pastor Gold?,  provocou Advanced.
– Ele está pensando que a mega igreja concorda com essa  postura de mercado? Então ele pensa que somos o quê? Uma empresa?
Pastor  Premium, que ouvia tudo quieto, encenou mais uma vez sua performance teatral  para esses momentos.
Levantou a mão, pedindo silêncio, levantou-se e se  dirigiu à imensa parede de vidro da CEO room.
Fitando o horizonte, pediu a  secretária que ligasse diretamente para o gabinete do pastor da Hiper Igreja,  sua grande rival.
Em segundos, a voz do pastor da Hiper Igreja se fazia ouvir  no recinto, graças ao sistema de viva-voz.
– Em que eu e minha humilde igreja  podemos ajudá-lo, meu querido pastor Premium?
– Humides somos nós, meu amado.  Estou sabendo que você acabou de comprar mais um LearJet para a frota.
Era  nítido o tom de ironia de ambos.
Mas Premium não queria perder tempo e foi  logo ao assunto. Ele sabia do interesse do pessoal da Hiper Igreja na  congregação em Campos do Jordão, mas sempre rechaçara as ofertas, mas agora o  cenário havia mudado.
– A congregação de Campos do Jordão está à venda. Ainda  tem interesse?, lançou ele.
– Dê seu preço…, desafiou o pastor da Hiper  Igreja.
– Dez milhões de reais, porteira fechada.
– Porteira fechada?  Negócio feito!
– Foi bom fazer negócio com você, meu amigo. Nossos advogados  conversarão sobre a papelada. E apareça lá no haras, tenho que lhe mostrar  um manga-larga que arrematei. Coisa linda e foi barato, só 180  mil.
Assunto encerrado, os membros do staff não entendiam como o pastor  Premium, que nunca admitia sequer conversar sobre a venda daquela congregação, a  vendera em menos de um minuto.
E o pior, com “porteira fechada”, sem tirar  nada, inclusive o novo obreiro, contratado a peso de ouro.
– Porteira  fechada, meu grande líder? Será que fizemos um bom negócio?
– Bom não,  Platinum. Ótimo negócio, ótimo negócio, repetia enigmático, enquanto continuava  olhando o horizonte.

Pensando grande – Parte VI

No dia da apresentação do candidato o clima no CEO Room estava meio estranho.
Enquanto o pastor Premium estava sorridente, os pastores Advanced, Platinum, Gold e Premier, que formam o alto escalão da Mesa Igreja, demonstravam certa inquietação.
Afinal, o líder máximo estava todo empolgado com o candidato.
Várias vezes se referiu a ele como o “divisor de águas” na gestão da Mega Igreja.
Na verdade, havia pavor no rosto de cada um deles.
– “Chegaram!”, avisou a secretária.
A porta se abriu e o headhunter apresentou o candidato.
Alto, jovem e bem apessoado, com um terno impecável, saudou a todos com voz firme, apertando as mãos com firmeza.
Postura de vencedor.
Pastor Premium não perdeu tempo: – “Meu jovem, contamos com você! Seu currículo muito nos impressionou”.
– “Obrigado, tenho certeza de que manterei minha trajetória de sucesso com vocês”.
Pastor Advanced resolveu arriscar: “Você é evangélico, católico, tem alguma religião?”.
– “Bem, nunca me preocupei muito com isso, afinal, sou uma pessoa muito ocupada. Para ser sincero, nunca parei para pensar nisso”.
– “Ah, sei…”, respondeu Advanced.
Platinum foi pelo mesmo caminho: “Você sabe que está ingressando numa organização religiosa? Não seria bom tomar uma decisão nesse campo?”.
O candidato não se fez de rogado:
– “Se isso é tão importante para vocês, posso tomar a decisão. É preciso assinar algo ou coisa semelhante?”.
Pastor Premium resolveu agir. – “Não se preocupe, meu rapaz! Essas são questões secundárias, que podem ser definidas depois”.
– “O importante é caminharmos todos juntos, rumo ao sucesso!”, sugeriu o headhunter.
A reunião foi encerrada com apertos de mão, práticamente sacramentando a contratação.
Após a saída do candidato e do headhunter, houve uma reunião meio tensa. Visivelmente preocupados com a imponência do candidato, os quatro pastores passaram a atribuir-lhe defeitos.
– “Pastor Premium, o senhor ouviu ele mesmo afirmar que não é evangélico! Aliás, não acredita em nada!”, falou Advanced.
– “Como os clien…, digo, os membros da congregação vão interpretar isso? Serem liderados por um pastor que não é evangélico?”, argumentou o pastor Gold.
– “Vocês são muito preconceituosos! Nunca ouviram que Deus opera milagres? Eu creio que ele será um obreio valoroso””.
Pastor Gold tentou pela última vez: – “Mas ele não conhece a Bíblia, nunca pregou, não é crente e…”.
Diante da insistência, o pastor Premium não teve outro jeito a não ser usar seu último e definitivo recurso:
– “Escutem bem, todos vocês!”, elevou o tom de voz, assumindo um ar solene, “o próprio Deus Pai Todo Poderoso falou-me de forma clara e inequívoca que esse é Seu candidato”.
E virando-se para o amedrontado staff, rugiu: – “Vocês querem questionar a escolha do Deus Eterno”.
E assim, com o silêncio geral, estava contratado o mais novo obreiro para a Mega Igreja.

Tristemunhos

Confortávelmente instalado no banco traseiro da Audi S8 blindada, o pastor Premium seguia para a Mega Igreja.
Por um breve momento, teve que interromper a leitura do Bloomberg Magazine, pois um carro de som parado ao lado trovejava um convite meio bizarro: “Não perca! Nesse domingo, na Hiper Igreja, venha ouvir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou, fritou e devorou suas vítimas! Venha ouvir o relato de um ex-monstro!”.
Premium deu seu conhecido sorriso de canto de boca. “Papo de malucos!”.
Mas eis que naquele fatídico domingo, após um dos cultos da noite, ele comentava com Advanced enquanto se dirigia para a CEO room: – “Estranho, percebi o santuário meio vazio. Você achou o mesmo?”.
Advanced não perdeu tempo: – “Mas é claro! A turma toda correu para assistir o testemunho do Tião Besta-Fera, que matou mais de cinquenta, esquartejou e…”
– “Só falta você me dizer que foi assistir, Advanced”, disse o pastor Premium, encarando seu auxiliar.
– “Bem, para ser sincero, fui sim, grande mestre. Queria ver o que aquele sujeito ia falar”.
Premium, maquiavélico, deu corda: – “E ele falou algo interessante?”.
Advanced se empolgou ao relatar as proezas do psicopata.
– “Ele cortava com uma faca cega, guardava os pedaços num freezer e ia fritando aos poucos, numa frigideira feita sob encomenda e…”.
– E quanto tempo durou seu testemunho?” Como foi o programa?”.
– “Bem, ele falou umas duas horas sobre seus crimes e o detalhes horripilantes, teve gente até que passou mal e no finalzinho acho que ele encerrou falando alguma coisa ter sido salvo, mas foi muito rápido, nem deu para ouvir direito”.
Premium faz então a pergunta vital: – “E tinha muita gente?”.
– “Tá brincando?! Tinha gente pendurada no lustre, e olha que o templo deles é igual ao nosso, devem caber uns 10 mil pessoas”.
No dia seguinte, logo cedo, Advanced, Platinum, Gold e Premier estão reunidos com o líder máximo da Mega Igreja. Assunto: Foco nos testemunhos que “transformam vidas”.
– “O tema é formidável, pastor Premium. Eu lembrei imediatamente de um missionário que trabalhava com as tribos lá no Araguaia…”, inicia o pastor Gold.
– “Isso é muito bonito, Gold, mas não é foco”, deixando o staff em compasso de espera, enquanto convoca o pastor Advanced.
– “Fez o que eu lhe mandei?”
Pastor Advanced traz então uma relatório, enquanto a tv de LCD começa a exibir as imagens de figuras sinistras, cada um mais mal-encarado que o anterior.
– “Esse aí parece ser bom. Consta aqui que ele exterminou mais de quinhentos cães e gatos da cidade dele”.
– ” Esse outro já fez de tudo um pouco. Chefe de gangue de rua, assaltou, matou, sequestrou, foi dono de boca de fumo, o cara é fera”.
E a relação seguia, com os piores expoentes da sociedade, com o que existe de mais repulsivo e degradante.
Lá pelo décimo “candidato” o mal-estar era evidente e o pastor Premier resolveu decidir.
– “Vamos convidar esse último, o “Mata Rindo”, que jogava o pessoal ainda vivo dentro da caldeira”.
Deu ordens claras para que o pastor Advanced, divulgasse na tv, rádio, jornais e internet.
O assunto tomou conta da cidade e, no dia marcado, a Mega Igreja estava abarrotada.
Pastor Premium e seu staff estavam acomodados no esplêndido espaço da nave, posicionados atrás do púlpito, aonde a atração da noite, o temível “Mata Rindo” daria seu testemunho.
Após a parte musical e as coregrafias, o “testemunhante” da noite tomou a palavra.
“Mata Rindo” não tinha esse singelo apelido à toa. Contou detalhes de sua vida, de como fora abandonado pelos pais, vivendo nas ruas desde os quatro anos e aos dez anos já chefiava uma gangue de rua.
O povo acompanhava, olhos fixos nele, o relato de suas proezas na chamada “vida pregressa”.
No entanto, pastor Premium cometera um erro craso: não havia conversado antes com “Mata Rindo”. Se tivesse tido esse cuidado básico, veria que não existia mais o assassino frio e sanguinário.
Ele era uma nova criatura, transformada pelo poder de Deus.
Pastor Premium tentou “ajudá-lo”: – “Mas você matou quantos, mesmo?”.
– “Prefiro não lembrar disso, pastor…”.
– “Não devemos renegar nosso passado, homem!”.
Muito contrafeito, ele sussura que foram “alguns”.
– “Alguns?!”, exclama o dirigente.
– “Estamos de alguém muito modesto, meus irmãos! Esse homem foi um monstro sanguinário, que matava com requintes de crueldade! Era o braço-direito do “coisa-ruim!”.
O regenerado sentiu-se incomodado com o destaque dado.
– “E é verdade que você jogava a turma ainda viva dentro da caldeira?”, provoca Premium.
– “Na verdade…”
– “E as vítimas gritavam muito quando você as matava? Você gostava de ver as expressões de terror?”.
– “Bem, pastor…”
– “Elas imploravam para você poupá-las?”
– “Você aquecia muito a caldeira?”
– “ELas morriam logo ou ficavam gritando enquanto eram derretidas?”
– “Você…”
– “Chega!!!! Não quero falar sobre meu passado”, interrompeu firme, mas sem irritação o convidado da noite.
– “Mas como? Todo esse povo veio aqui para ouvir o relato do “Mata Rindo”!”, insistiu Premium.
Ele estava desconfortável, pois percebeu que a coisa estava entrando por um caminho pelo qual ele não sabia caminhar.
– “Se vieram aqui ouvir o “Mata Rindo”, perderam seu tempo. Hoje sou uma nova criatura, não tenho orgulho do meu passado, já paguei minha dívida com a sociedade”.
– “Mas os detalhes, o cheiro de queimado, os corpos virando cinzas…”, gagueja Premium.
– “É tudo passado, graças a Deus!”, disse, retirando-se do imenso palco e saindo pelos fundos.
Diante da “saia justa”, pastor Premium desconversou e encerrou o culto meio contrariado.
Mas, para sua surpresa, as pessoas que lotavam a Mega Igreja gostaram do testemunho. Algumas choravam e oravam, de olhos fechados.
À saída, antes de embarcar na Mercedes classe S blindada rumo sua casa, lamentou-se com pastor Platinum.
– “Vá entender esses caras, Platinum. O sujeito tem uma audiência dessas, com mais de 10 mil pessoas e fica com vergonha de “abrir o verbo”.
Ficou só na “água-com açúcar”.

Pensando grande – Parte V

No dia da apresentação do candidato o clima no CEO Room estava meio estranho.
Enquanto o pastor Premium estava sorridente, os pastores Advanced, Platinum, Gold e Premier, que formam o alto escalão da Mesa Igreja, demonstravam certa inquietação.
Afinal, o líder máximo estava todo empolgado com o candidato.
Várias vezes se referiu a ele como o “divisor de águas” na gestão da Mega Igreja.
Na verdade, havia pavor no rosto de cada um deles.
– “Chegaram!”, avisou a secretária.
A porta se abriu e o headhunter apresentou o candidato.
Alto, jovem e bem apessoado, com um terno impecável, saudou a todos com voz firme, apertando as mãos com firmeza.
Postura de vencedor.
Pastor Premium não perdeu tempo: “Meu jovem, contamos com você! Seu currículo muito nos impressionou”.
– “Obrigado, tenho certeza de que manterei minha trajetória de sucesso com vocês”.
Pastor Advanced resolveu arriscar: “Você é evangélico, católico, tem alguma religião?”.

– “Bem, nunca me preocupei muito com isso, afinal, sou uma pessoa muito ocupada. Para ser sincero, nunca parei para pensar nisso”.
– “Ah, sei…”, respondeu Advanced.
Platinum foi pelo mesmo caminho: “Você sabe que está ingressando numa organização religiosa? Não seria bom tomar uma decisão nesse campo?”.
O candidato não se fez de rogado:

– “Se isso é tão importante para vocês, posso tomar a decisão. É preciso assinar algo ou coisa semelhante?”.
Pastor Premium resolveu agir.
– “Não se preocupe, meu rapaz! Essas são questões secundárias, que podem ser definidas depois”.
– “O importante é caminharmos todos juntos, rumo ao sucesso!”, sugeriu o headhunter.
A reunião foi encerrada com apertos de mão, práticamente sacramentando a contratação.
Após a saída do candidato e do headhunter, houve uma reunião meio tensa.
Visivelmente preocupados com a imponência do candidato, os quatro pastores passaram a atribuir-lhe defeitos.
– “Pastor Premium, o senhor ouviu ele mesmo afirmar que não é evangélico! Aliás, não acredita em nada!”, falou Advanced.
– “Como os clien…, digo, os membros da congregação vão interpretar isso? Serem liderados por um pastor que não é evangélico?”, argumentou o pastor Gold.
– “Vocês são muito preconceitusos! Nunca ouviram que Deus opera milagres? Eu creio que ele será um obreio valoroso””.
Pastor Gold tentou pela última vez: – “Mas ele não conhece a Bíblia, nunca pregou, não é crente e…”.
Diante da insistência, o pastor Premium não teve outro jeito a não ser usar seu último e definitivo recurso:- “Escutem bem, todos vocês!”, elevou o tom de voz, assumindo um ar solene, “o próprio Deus Pai Todo Poderoso falou-me de forma clara e inequívoca que esse é Seu candidato”.
E virando-se para o amedrontado staff, rugiu: – “Vocês querem questionar a escolha do Deus Eterno”.
E tava contratado o rapaz.

Uma mão lava a outra

Ultimamente, o Pastor Premium mostrava incomum interesse pela política da cidade.
Pastor Advanced, seu auxiliar direto, notara que ele acompanhava de perto o desempenho dos candidatos, mas sem demonstrar predileção por esse ou aquele.
Naquele dia, ao entrar na CEO room, Advanced encontra o pastor Premium parado em frente à imensa janela que ocupa toda a parede, fitando o horizonte.
-“Meu grande mestre, conheço esse olhar pensativo! Genialidades e grandes obras certamente estão fervilhando em sua mente”, declarou o puxa-saco.
– “Advanced, estou pensando em declarar meu apoio a um desses candidatos”.
O auxiliar mostou-se surpreso: – “Apoio? Como assim?”, indagou.
Pastor Premium começou a circular pela imensa sala, escolhendo as palavras.
– “Advanced, a mega igreja e sua liderança exercem um papel primordial na sociedade. Somos atalaias, gigantes a favor da coletividade, verdadeiras locomotivas rumo ao progresso!”, e arrematou: “Não podemos nos furtar a manifestar nossa posição”.
Sempre atrasado, Advanced iniciou um discurso meio capenga: – “Parabéns, grande líder! Realmente, temos que orientar nosso povo sobre o melhor governante, aquele que há de conduzir o povo com sabedoria e justiça, aquele que…”
– “Dá um tempo, Advanced! O povo que se vire. Estou pensando em… digamos, formar alianças, organizar uma “base de sustentação”, se é que você me entende”.
O pastor Advanced deveria ter desconfiado que a última coisa que o líder máximo da Mega Igreja pretendia era “orientar nosso povo sobre o melhor governantes, etc,etc”.
O cenário era propício. Após uma campanha acirrada, com direito a baixarias diversas, dois candidatos chegaram ao segundo turno.
Nenhum dos dois era – para usar uma expressão antiga – flor que se cheirasse, mas essa não era a maior preocupação do pastor Premium.
– “Advanced, entre em contato com o comitê de ambos, de forma sutil, e veja o que oferecem pelo nosso apoio”.
– “Com o comitê de ambos? Mas pensei que iríamos apoiar um deles…”, era Advanced provando que estava na idade da Pedra Lascada em termos de política.
– “Meu bom homem, vamos ouvir o que eles tem a oferecer. Ou você acha que nosso apoio será dado só pelos belos olhos do candidato?”.
Advanced trabalhou surpreendentemente bem, articulando nos bastidores.
Um dos candidatos havia sentado o porrete em candidatos evangélicos e isso o prejudicava para aceitar o apoio da Mega Igreja. Isso decidiu o apoio a seu adversário.
O apoio foi comemorado com direito a abraços e apertos de mão na CEO room, com direito a cobertura da imprensa.
Pastor Premium apareceu na mídia apertando a mão do candidato a prefeito e declarando: – “Com esse, o povo de Deus terá vitória!”.
Podem falar mal do pastor Premium em muitas coisas, mas ele é, de fato, alguém que “veste a camisa”.
No dia seguinte, no cultos da Mega Igreja a pregação foi sobre “um homem que Deus enviaria para livrar o povo da cidade do jugo da injustiça e da opressão, trazendo uma época de paz e prosperidade”.
Estranhamente, durante todo o culto, o telão multimídia exibia o número do candidato no fundo. Folhetos e “santinhos” do candidato eram distribuídos junto com os luxuosos programas de culto, enquanto seus cabos eleitorais transitavam com desenvoltura pelas dependências da Mega Igreja.
Uma reunião da junta diaconal teve que ser adiada, pois várias salas foram cedidas para que o comitê do candidato montasse suas “bases de trabalho locais”.
Contrariado, um diácono caiu na besteira de questionar o pastor Platinum: – “Mas isso está errado. Então a igreja prejudica seus trabalhos por causa de comitê eleitoral de um candidato político. Viramos palanque?”.
Pastor Platinum respondeu à altura: – “Saiba, ovelha rebelde, que esse acordo visa o melhor para o povo de Deus! Não seja pedra de tropeço para os planos do pastor, digo, de Deus para Sua igreja!”.
A dúvida do diácono acerca da igreja virar palanque seria desfeita à noite, quando, nos quatro cultos, o candidato práticamente dominou a cena. Falou de seus projetos, de sua amizade de “longa data” com o pastor Premium, arriscou-se como cantor, contou piadas – algumas inadequadas para o ambiente – e distribuiu sorrisos e apertos de mão à porta.
O resultado do apoio rápidamente se fez perceber nas pesquisas.
O candidato abriria cerca de 20% vantagem nas pesquisas sobre intenção de voto.
“Nosso candidato é bom, tem as melhores propostas e o povo entendeu isso”, comentava um dos articuladores do cômite eleitoral do candidato, numa das reuniões semanais no CEO room da Mega Igreja.
No dia seguinte, entre o staff os comentários eram outros: “Candidato bom? Melhores propostas? É uma  marmota!”, desdenha o pastor Gold.
– “O povo entendeu nossa proposta”, ainda tenho que ouvir isso do sujeito”, ridiculariza o pastor Platinum.
– “O povo não enxerga um palmo diante do nariz, Platinum. Eles deveriam admitir que nosso apoio é que alavancou a campanha daquele inútil”, encerra Premium.
Na verdade, existiam alguns pontos fracos no candidato, devidamente camuflados pelo apoio maciço da Mega Igreja, com seu poder de divulgação e seu imenso rebanho.
Como consequência, a uma semana da eleição, o candidato apoiado pela Mega Igreja tinha 80% das intenções de voto.
A divulgação dos resultados da pesquisa rendeu comemoração efusiva na CEO room.
Gritos, palmas, discursos, fotos, abraços apertados, palavras de apreço, etc.
Em meio à euforia total, o pastor Premium brada: “Faremos um governo para marcar época!!”.
A frase não passou desapercebida ao candidato e no dia seguinte, houve uma tensa reunião na Mega Igreja.
– “Mal entendido? Como assim, candidato?”, indaga um contido pastor Premium.
– “Bem, ontem eu ouvi o senhor falar que “faremos um governo”, mas não há mais espaço para inserir ninguém no grupo que governará no próximo mandato”.
Um silêncio sepulcral tomou conta da sala, enquanto um ar gelado varria o ambiente.
Por aquela o staff da Mega Igreja não esperava. O pastor Advanced, que havia mediado os contatos com os candidatos, afrouxou o nó da gravata.
O candidato foi claro: “Quando o pastor Advanced nos procurou, disse-nos que a Mega Igreja tinha interesse em nos apoiar. Só isso”.
Pastor premium lançou um olhar mortal para Advanced mas tentou contemporizar.
– “Mas é claro que o candidato reconhece que esse avanço nas pesquisas tem forte influência do nosso apoio, não reconhece?”.
O candidato, já picado pela “mosca azul” da liderança nas pesquisas, foi mordaz.
– “Pastor Premium, desculpe a sinceridade, mas eu sou bem melhor do que meu adversário e minhas propostas são imbatíveis. Até concordo que sua igreja possa me dar uma meia-dúzia de votos, mas não superestime seu apoio”.
O candidato certamente não mediu as consequências dessas palavras.
Irritado, Pastor Premium foi curto e grosso: “Meia-dúzia de votos? Então veremos! Passar bem!” e praticamente enxotou o candidato e seu staff da sala.
Ato contínuo, chamou a secretária.
– “Convoque uma coletiva com rádio, tv, jornais, internet, os canecos, quero falar para o mundo inteiro. E rápido!”.
Duas horas depois as maiores jornais e emissoras de tv estavam à postos para ouvir a declaração do pastor Premium, no púlpito da Mega Igreja.
– “É com imenso pesar que comunico aos membros da Mega Igreja e à comunidade em geral que erramos”, inicia seu discurso, de forma dramática.
Em cada frase, a entonação trágica preparava o terreno para a declaração seguinte.
– “Os filhos das trevas são mais astutos que os filhos da Luz. Fomos enganados, sórdidamente enganados! Abusaram da boa fé do povo de Deus, de humildes servos do Senhor, que crêem na pureza e singeleza de intenções”.
Hábilmente, orientado que foi pelo grupo jurídico da Mega Igreja, não há nada claro ou objetivo, apenas insinuações.
– “Como líder máximo da Mega Igreja, declaro, entristecido e ferido, que retiramos nosso apoio ao candidato à prefeito”.
O efeito foi devastador. Tema de todos os jornais, revistas e telejornais, a retirada do apoio da Mega Igreja causou inevitável estrago na reta final da campanha.
De forma orquestrada, os demais membros do staff da Mega Igreja davam declarações evasivas, mas destrutivas.
–  “A única coisa que posso dizer é que jamais imaginei tal coisa”, choramingava Platinum.
– “Apunhalados pelas costas, por alguém que demos casa, comida e abrigo”, dramatizou o pastor Gold.
– “Mordeu a mão que o alimentava”, apelou Gold.
A assessoria de imprensa da Mega Igreja divulgou que o pastor Premium ficara tão abalado com a “injustiça” que estava em retiro espiritual, para se recuperar.
Em questões de dias, tudo se inverteu. A pesquisa a seguinte indicava que o candidato não só perdera a liderança como seria massacrado nas urnas: 98% dos entrevistados declararam que votariam no adversário.
Na CEO room, pastor Platinum transmitia a boa notícia ao pastor Premium, que estava em sua mansão em Boca Ratón.
– “Ótimo, boa notícia Platinum. Isso é para esses insetos aprenderem o poderio da Mega Igreja”.
Antes de desligar, pastor Premium manda o recado: – “Antes que me esqueça, avise ao Advanced para arrumar as malas e passar uns seis meses na congregação lá no Tocantins, no meios das onças, para meditar na burrada que fez”.

Pensando grande – Parte IV

E eis que afinal chega o dia que o headhunter, após caçar os melhores candidatos no mercado, se reuniu com o staff da Mega Igreja para apresentar seus candidatos.
Pastor Premium não disfarçava a ansiedade. – “Vamos lá, meu amigo, o que tem para nos mostrar?”.
O profissional, um dos melhores do mercado, contratado a peso de ouro, iniciou sendo sincero.
– “Bem, dentro do perfil que vocês traçaram eu encontrei bons nomes, mas todos estranhavam quando eu dizia que o contratante era uma instituição religiosa. Houve quem duvidasse, pois as exigências estão meio fora do perfil”.
Pastor Premium não se fez de rogado: – “E daí? Eles estão pensando que não temos condições de pagar? É isso?”.
– “Pode ser, pastor Premium, pois as exigências são de empresas top de mercado”.
Advanced tentou tapar o sol com a peneira:
– “Estamos apenas tentando quebrar paradigmas. As empresas seculares podem buscar os melhores profissionais e as agências do Reino de Deus tem que ficar com as sobras, com o resto?”.
O staff todo sorriu, aprovando sua bela argumentação.
Mas o headhunter, experiente, acostumado com coisas do arco da velha, foi direto ao ponto:
– “Meus caros, o que eu quero dizer é que um cara com esse perfil tem sangue gelado nas veias e o coração na sola dos pés. Definitivamente, não é um sujeito que vai abraçar as velhinhas e visitar doentes com uma Bíblia debaixo do braço”.
– “Você quer dizer que é um bom profissional?”, indagou pastor Gold, alterando o tom de voz quando pronunciou “profissional”.
– “É do tipo que venderia a mãe para uma fábrica de rações. E não entregaria”.
Pastor Premium se irrita. – “Quer dizer que pagamos uma fábula para você nos dizer que não achou ninguém? É isso?”.
– “Engano seu, pastor. Encontrei três bons candidatos. Posso exibir a entrevista?”.
Ato contínuo, a tela de LCD do CEO Room passou a exibir o vídeo com as entrevistas. Todos eram jovens, com um currículo invejável. Formados nas melhores universidades do país, todos tinham feito cursos no exterior, inclusive mestrados.
Fluentes em vários idiomas, alguns com livros publicados, assinavam colunas em publicações como Exame, Você S.A., Harvard Magazine, etc.
Os feitos tambem impressionavam.
Um deles assumira a empresa do pai, após sua morte. Uma empresa média, com quadro de funcionários antigos, com longo tempo de casa. Demitiu todos, contratou terceirizados por salários de fome, reduziu a qualidade dos produtos e fez os lucros da empresa explodirem.
Outro foi contratado por uma empresa brasileira que precisava aumentar o faturamento. Fechou a unidade no Brasil, demitindo centenas de funcionários e transferiu toda a produção para a India. Trabalho escravo, dizem, mas nada nunca foi provado.
Já o terceiro… Bem, o terceiro provou ser um legítimo timoneiro rumo ao lucro. Com políticas de austeridade como cortes de benefícios aos funcionários, fez com que a empresa quadruplicasse seu faturamento em menos de dois anos. Vendeu a área que antes era o clube recreativo dos funcionários e transformou num imenso armazém. A vila de casas dos funcionários também vendida, após uma longa disputa na justiça.
A empresa se notabilizara por entrar com sucessivos recursos, sempre protelando o pagamento de indenizações. Dessa forma, o saldo de caixa crescia exponencialmente.
– “Genial! Esses são os caras!”, exclamou Premium.
– “Só tem um detalhe, caro pastor”, falou o headhunter, desligando o video e olhando fixamente para o grupo. – “Nenhum desses aí saberia diferenciar uma Bíblia de um menu de restaurante. Desconhecem completamente o que é igreja, Jesus Cristo, etc”.
– “Deixe de ser radical, meu amigo”, tranquilizou-o pastor Premium. “Não há impossível para Deus”.
Os pastores Platinum, Gold, Advanced e Premier já apontavam seus favoritos.
– “Todos são bons, mas o do “trabalho escravo” provou ser esperto”, defendia Premier, sendo alertado pelo headhunter que nada havia sido provado, eram só denúncias.
– “Eu gostei do garoto que herdou a empresa do pai. Mandou a velharia embora e fez a coisa dar lucro. É dos meus!”, empolgou-se Platinum.
– “E o senhor, grande mestre?”, Advanced pergunta para um observador Premium. O pastor Premium está parado em frente à janela, como sempre faz quando quer dar um ar dramático a suas declarações.
Vira-se lentamente e encerra o assunto: – “O terceiro tem a nossa cara. Pode trazê-lo”.